E com muito pesar que informamos a perda de Roberto Kenji Fukuda, que foi um grande artista plástico, reconhecido pelas suas esculturas e pinturas maravilhosas, deixando uma lacuna enorme na vida de todos nós e na arte brasileira.

A Imóvel Magazine teve o privilégio de conversar com Kenji Fukuda, um dos maiores expoentes da arte abstrata no Brasil.

Por Thabata Martin

O artista mora ao lado, mas poucos sabem disso. Imagine adquirir obras direto do forno, ou melhor, direto do atelier do paulista de Indiana, Kenji Fukuda – artista que criou uma das esculturas mais elaboradas do país – o monumento comemorativo aos Jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro. Celebrado pela mídia internacional, suas obras estão expostas nas mais conhecidas galerias europeias e americanas. Fukuda mudou-se para a capital paranaense em virtude de sua esposa, Clecy, ser curitibana. “Gosto da qualidade de vida que a cidade proporciona”, conta. Em Curitiba, Fukuda registrou sua assinatura na escultura de parede, em bronze, exposta no centro de convenções do SESC-PR. A obra representa desenvolvimento e ascensão.

Kenji Fukuda e seus cinco irmãos cresceram entre telas e aquarelas. Porém, somente ele herdou do pai o talento para as artes plásticas. Fukuda vive de sua arte. Começou como pintor figurativo. Cursou a Faculdade de Belas Artes a fim de aperfeiçoar seus traços e a técnica de pintura. “Em questão de arte, a gente não aprende. Se você não tiver um talento nato, o que se aprende na escola não é o suficiente”, pontua. Na sequência, atuou por oito anos no mercado de publicidade e propaganda. “Precisava realizar o layout na mão – desenhado e pintado. Hoje este trabalho é feito de forma eletrônica”, explica. Foi layout man, diretor de criação e diretor de arte. Após adquirir a experiência de que precisava, iniciou na década de 80 sua fase abstracionista – linha-mãe onde expressa até hoje sua sensibilidade, equilibrando formas, cores e texturas. “No início fui um desastre. Não saía de jeito nenhum”, diverte-se com o comentário. 

Contudo, o artista despontou sua carreira no Brasil. “A primeira exposição que eu fiz em galeria foi em Porto Alegre. Em virtude de um jantar oferecido pelo galerista para os possíveis interessados, vendi tudo na véspera. Foi um bom começo”, recorda. Em 1985, fez a primeira exposição fora do país, na Alemanha. Depois emendou com Paris, Estados Unidos e Japão. O primeiro quadro abstrato que vendeu foi em seu atelier em São Paulo, na Oscar Freire. Na época, sofreu muita oposição da geração de artistas do tempo de seu pai. “Não cheguei a aproveitar nada dele, nem o nome. Entretanto, imaginei que seria acolhido por esta turma. Eles alegavam que eu fazia parte de outra geração. Nunca vou esquecer esse episódio”, diz. A última exposição internacional que Fukuda realizou aconteceu em Nova Iorque, no ano passado. Ele lamenta o fato de a arte não ter muito reconhecimento por parte da mídia. “O Brasil é pobre culturalmente. Há duas décadas, a arte era prestigiada por conta da cultura enraizada dos nossos pais e avós europeus. Infelizmente os filhos não seguiram essa tradição. Com isso, quem perdeu foi a nossa geração”, diz. 

Sensibilidade

Fukuda afirma que a diferença da sua arte para outros artistas é que seus abstratos têm mais sensibilidade. “Apesar de utilizar cores fortes, evito traços agressivos. Não quero agressividade dentro da casa das pessoas, quero suavidade”, esclarece.

Segundo o artista plástico, as pessoas que possuem compreensão de arte colecionam mais obras abstratas do que figurativas. “A tela abstrata está um passo à frente. As pessoas que apreciam abstrato, com certeza são mais familiarizadas com a arte”, sugere. Fukuda afirma ainda que vendeu muitas telas desse gênero. “Vendi muito figurativo, mas quando comecei a vender o abstrato, tive a real sensação de vitória”, justifica. 

Entre as décadas de 80 e 90, Fukuda foi o artista mais solicitado no Brasil, segundo pesquisa divulgada pela Revista Veja. “Na época tinha mais de cinquenta clientes na espera. Eu não vencia. Tinha que trabalhar muito para acompanhar a velocidade da marchand”, recorda. Questionado sobre como funciona sua produção, o artista revela a dificuldade de atrair a atenção do público para a arte em geral. “Nós infelizmente temos que trabalhar de acordo com a demanda. Isso é a demonstração clara de um país sem cultura. Aqui no Brasil você precisa abraçar quem quer comprar. Nós dependemos da venda para sobreviver”, diz. 

Na parede da sua casa

Apesar do mercado de arte ter acompanhado os bons tempos da economia na última década, desde 2008 (época da falência do banco Lehman Brothers), o impacto da crise econômica mundial para as artes plásticas afetou profundamente o mercado. “Foi uma crise muito violenta. Muita gente em São Paulo parou de pintar. Eu também senti a diferença, mas eu não vou parar nunca porque eu só sei fazer isso”, afirma Fukuda.

O lado bom de tudo isso é que, se por um lado a crise causou traumas para os artistas contemporâneos, há que se aproveitar as oportunidades para mergulhar neste fascinante mercado. Hoje, quem já é colecionador garimpa novos artistas pelo fato deles terem preços mais atrativos e também porque se eles apostarem nos nomes certos, a chance de ver o investimento valorizar é grande. Já Fukuda indica investir naquilo que gosta – e isso envolve criar um repertório pessoal. “O retorno de comprar uma obra de arte é o prazer de admirá-la na parede da sua casa. As pessoas que investem em arte são culturalmente ricas”, avalia. 

O artista conta que também teve que encontrar novas formas de trabalhar. “Hoje trabalho por encomenda, mas costumo ter telas prontas. Vendo direto no meu atelier, em Curitiba. A melhor época para comprar é quando estou produzindo para mandar para as galerias de São Paulo”, sugere. 

Mais que um elemento estético, obras de arte consistem em bens altamente duráveis. Portanto, se pretende iniciar-se neste nicho procure pessoas que o orientem. Se não sentir-se confortável para ir até às galerias, consulte seu arquiteto. Ele pode ajudar a dar vida a um ambiente já existente ou inspirar-se para conceituar um novo ambiente a partir de uma tela ou escultura que seja a sua cara.

A escultura mais conhecida como Boulevard do ‘Pan’ está localizada na Barra da Tijuca. A obra tem 15 metros de altura e pesa nada menos que cinco toneladas. Ela foi produzida durante cinco meses em Curitiba, no atelier do artista, e transportada de carreta para o Rio de Janeiro. Embora nos últimos anos tenha se dedicado exclusivamente à linguagem abstracionista, Fukuda optou por criar uma peça mais acessível ao grande público.

Crédito: Divulgação

Fonte: Thabata Martin

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