Conheça mais sobre o Docway, o aplicativo que aposta na medicina humanizada.

Quem nunca sonhou em ter uma grande ideia, e mais, conseguir torná-la realidade e deixar a sua marca no mundo? O curitibano Fábio Tiepolo, 35 anos, formado em Administração de Empresas, com ênfase em Marketing, entrou para esse seleto time de quem faz acontecer. Tiepolo dedicou 12 anos de sua trajetória profissional à Johnson & Johnson, onde começou sua carreira como propagandista, foi representante, depois consultor, gerente distrital, foi gerente de produto e atuou no time de marketing e vendas. Em setembro de 2015 ele se desligou da gigante para lançar, em Curitiba, o Docway - aplicativo que aposta na medicina humanizada.

Imóvel Magazine – Qual a problemática que te chamou a atenção para você criar o Docway?
Fábio Tiepolo - Nesses 12 anos eu aprendi bastante coisa, especialmente sobre a dificuldade de um paciente conseguir um atendimento médico. Mesmo num ambiente privado, o paciente quase sempre espera algo em torno de 15 a 20 dias para ser atendido. Pelo SUS essa espera pode levar anos. Tive esse insight no início de 2014 e comecei a dividir essa ideia com um grupo de médicos. Perguntava a eles o que entendiam ser importante num atendimento domiciliar e quanto eles cobrariam por esse atendimento. Fui me abastecendo de informações. A ideia é oferecer uma solução onde a pessoa possa ter, em poucas horas, um médico para atendimento em casa.

IM - Mas você já pensava em empreender?
FT - Eu sempre gostei muito dessa ideia, mas, ao mesmo tempo quando você tem uma situação favorável de emprego você se acomoda e fica difícil tomar essa decisão. Trabalhar numa grande companhia era um fator importante. Hoje, o cartão de visitas da Johnson & Johnson tem um peso absurdo. Ainda é meu sobrenome. Eu trabalhava na Janssen, companhia farmacêutica do grupo. Cortar esse laço é dolorido. Enquanto metade dos meus amigos me incentivava, a outra metade me chamava de louco. Comecei a refletir que eu tinha cumprido o meu papel. Minha curva de aprendizado mudaria pouco dali em diante, enquanto o apetite por uma área totalmente inovadora já havia me fisgado.

IM – A sua formação acadêmica e toda a prática na J&J foram suficientes para você empreender no segmento de tecnologia e saúde?
FT - Nos últimos três anos eu já vinha me preparando para operar um negócio sozinho. Nessa época realizei, fora do país, dois cursos importantes: Inovações em Saúde, em Harvard, e Medicina na Era Digital, na Universidade de Rice. Esses dois cursos me deram uma boa base de estratégia. Eu não era do universo de startup, apesar de sempre ter sido muito empreendedor dentro de novos projetos, numa área super regulamentada como é a saúde. Então, eu sempre busquei outras formas de conseguir trazer para realidade a parte de tecnologia, inovação e assim consegui me destacar. Durante esse período, as minhas noites eram dedicadas a procurar modelos de negócio para trazer para o Brasil. 

IM – E como você fez a ideia se tornar realidade?
FT - Num primeiro momento todos os investimentos foram meus. Quando o operacional começou, tive a oportunidade de conhecer pessoas que tinham uma relevância grande para o meu negócio. A primeira pessoa foi o David Stacciarini, que é um advogado na área de saúde, conhece política de saúde no mundo inteiro, e hoje é um dos sócios da Docway. Além do investimento que ele fez na empresa, ele agregou um plano de internacionalização. Desde a entrada dele nós fizemos uma segunda versão do aplicativo e tornamos a operação mais robusta. De março para cá, o Grupo Garantia – de Private Equity - fez um primeiro aporte. A Docway foi a primeira empresa que eles adquiriram.

IM - Hoje a Docway não admite outros investidores?
FT - Nós temos um cap table (capitalization table – ferramenta que detalha a participação de cada sócio no negócio), mas com certeza admitirá outros fundos de investimento. Por hora vamos usar o dinheiro que temos em caixa, para atingir determinados marcos negociados com o próprio Grupo Garantia, lançar outras captações até fazermos um IPO (Initial Public Offering) e iniciarmos a comercialização de papéis na bolsa.

IM – O plano é ousado!
FT – Sim. A gente tem um modelo muito parecido com o Uber (estimado em 65 bilhões de dólares), só que voltado para a saúde. Pode ser ousado, mas esse é o tamanho que a gente mira. Eles recebem dinheiro de grandes fundos americanos e nada impede a Docway de ser uma empresa internacional.

IM - Qual a configuração da empresa hoje?
FT - A Docway está presente em mais de 100 cidades do Brasil e atualmente a operação tem time composto por 12 profissionais. Estamos nos aproximando dos 1.700 médicos, em sua maioria médicos de família, especialistas em pediatria, geriatria, clínicos gerais, entre outros. Mais de 25 mil pessoas já baixaram o aplicativo. Hoje a nossa média mensal é de 400 atendimentos em todo o país. Queremos ter 5 mil médicos em nossa base até o final de 2016 e estarmos em pelo menos 70% dos municípios do Brasil. Eu tenho um sonho que é ter um médico de família disponível para atendimento em cada raio da cidade. Isso é moderno. Isso é o que Estados Unidos e Europa fazem.

IM - Qual o perfil desses médicos?
FT - De um lado temos médicos, de quatro a seis anos de formado, que estão construindo a sua clientela e, do outro encontramos médicos mais experientes, saudosistas, que há tempos atrás atendiam em casa. São profissionais que gostam de olhar os clientes como um todo. Há alguns dias, me alimentando de feedbacks, soube de um médico que teve o cuidado de olhar a caixa de medicamentos do paciente. Metade estava vencido. Quando, dentro de um consultório, o médico perguntaria os medicamentos que você tem em casa? Esse tipo de consulta permite que o médico tenha uma visão holística do paciente e do ambiente. Situações de higiene, como e onde o paciente se alimenta, por exemplo, são relevantes para o diagnóstico. Portanto, além da comodidade, são muitos benefícios agregados.

IM - Qual é o público-alvo?
FT - Basicamente são mães que trabalham e precisam de um especialista em tempo reduzido. Idosos, com dificuldade de locomoção, que dependem de outra pessoa, também. Eu entendo que a Docway é uma empresa que realmente transforma o sistema, se você pensar na comodidade. Hoje as pessoas compram tempo. Se eu tiver que gastar três horas para ir ao médico, para resolver problemas pontuais, muito provavelmente eu nem vá.

IM - E os planos de saúde já reconhecem e se posicionam diante do aplicativo? Existe reembolso?
FT - Alguns deles já começam a ver valor no atendimento em casa. Isso porque 80% dos atendimentos realizados em pronto-atendimentos poderiam ser realizados fora dali e isso encarece muito os custos das operadoras. Então, eles já estão vendo valor em mandar o médico em casa. Esse profissional vai ajeitar essa cadeia e orientar como o paciente pode seguir o caminho correto dentro do sistema de saúde. Sobre a questão do reembolso, basicamente o paciente tem que consultar seu contrato com a operadora. Mas acho que essa questão vai além. Cerca de 1,5 milão de pessoas perderam o convênio de janeiro para cá. São pessoas que ainda esperam ter qualidade no atendimento, mas não contam mais com a operadora. Esse cara vai fazer um investimento de R$ 150 numa consulta médica, caso ele precise. 

IM - Você tem números de Curitiba?
FT - Curitiba é uma capital de teste para novos produtos e, por isso, a Docway nasceu aqui. O público gosta de ser bem atendido, bem tratado. Começar por Curitiba revelou coisas importantes. Uma delas é que, se o curitibano recebe um profissional dentro de casa é muito provável que outras cidades receberão. Aqui temos mais de 300 médicos cadastrados e, entre maio e junho, para se ter uma ideia, fizemos mais de 200 vacinas para gripe pelo aplicativo. 

IM - Você é cada vez mais um homem do setor de saúde. Podemos esperar por outras novidades?
FT - A Docway foi pensada para os próximos cinco anos. Recentemente nós trouxemos uma empresa para entrega de medicamentos em casa. Na próxima versão do aplicativo essa novidade estará disponível. Em teoria, para mim, a pessoa que não quer sair de casa para consulta é a mesma que não quer sair para ir à farmácia. 

IM - Como você pretende influenciar esse mercado daqui para frente?
FT – Estamos muito próximos com as agendas dos Conselhos Regionais de Medicina. Isso porque, cada vez mais, a telemedicina vem se aproximando do Brasil e nós não temos regulamentações claras para isso. Eu espero participar desses fóruns e discutir exaustivamente formas de proteção de dados de pacientes, atendimentos que possam ser feitos de outras formas, não apenas presenciais, além de identificar alternativas para modernizar o sistema de saúde usando tecnologias. Essa transformação passa por vários players, tanto operadora, como indústria, hospital, paciente, médico, consultório e enfermeiro. Nesse cenário, em algum momento, eles irão precisar conversar. Aí nós começamos a desenvolver planos onde todos conversem e, principalmente, o paciente seja o centro.

IM - E como é deixar uma marca no mundo?
FT - Segundo a Agência Nacional de Saúde (ANS), cada pessoa faz, em média, cinco consultas por ano – mulheres fazem mais. Imagine que uma operadora pode ter uma carteira absolutamente contaminada por fumantes e pessoas que não praticam nenhuma atividade física, que uma hora vão explodir como uma bomba relógio. Portanto, a questão da prevenção está fazendo com que as operadoras olhem para a Docway. É importante, por exemplo, disseminar a importância de fazer um check-up. Academias pedem hoje atestados de aptidão física para que você possa vir a frequentar o estabelecimento. Essas demandas pontuais, assim como a consulta com um nutrólogo, eu posso oferecer pelo aplicativo. 

IM – A Docway já tem concorrentes?
FT - Temos concorrentes de telemedicina. Nós nos espelhamos muito em iniciativas fora do Brasil. Fomos os primeiros a lançar no país, mas hoje já existem outras iniciativas em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Nosso desafio não é concorrer e sim formar mercado. Estamos pavimentando uma estrada que consiste, justamente, em trazer o conceito para essa ótica domiciliar. Depois que isso acontecer a gente concorre.


Entrevista concedida a Thabata Martin | Fotos André Sade