Paisagens revelam cristais, ecografias, flores. Um mergulho na poética de Juliane Fuganti.

Por Thabata Martin | Fotos de Lex Kozlik

Juliane Fuganti está em Londres. Ou pelo menos uma parte de sua arte está na terra da rainha. A mais recente, talvez a mais paranaense. O paradisíaco mangue de Guaratuba, nosso quintal, ganha destaque na Gallery 32, na exposição Beyound the image.  “O que nós temos aqui é muito bonito. É isso que eu quero mostrar agora”, explica a artista. Juliane está numa fase de fotogravuras. “O que me tocou foi a questão da luz na paisagem, captada pela fotografia”, revela.  “Eu vou lá, fotografo, me aproprio da fotografia, e transfiro isso para gravura, que é o que eu domino”, explica. O trabalho impresso ganha técnica mista com a intervenção da aquarela. “Agora quero transferir isso para a cerâmica. É a minha meta para 2017”, adianta.

Juliane está animada com o início de sua nova fase. O motivo? Terá mais tempo para criar. A artista conclui, recentemente, sua gestão como Diretora de Centro de Artes da Embap (Escola de Música e Belas Artes do Paraná), atividade que exerceu nos últimos dois anos. “Tenho uma história com a Belas. Tudo começou com a minha formação em Pintura, depois fui admitida como professora no primeiro grande concurso realizado pela instituição, em 1991. Fui relutante em assumir essa posição, mas achei que era hora de doar um pouco de tempo para a instituição”, justifica.

Juliane é estudiosa. A economista que deu lugar à pintura, no efervescente início dos anos 80, logo se especializou em História da Arte, mas não parou por aí. Realizou programa de residência artística em Lyon, na França, a convite da Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, e depois se dedicou ao mestrado em Processos Criativos. “A arte não precisa de justificativa, mas como eu fiz um mestrado, estudar alguns teóricos que explicam a genética de criação do artista foi um processo muito gratificante”, garante.

Para admirar a paisagem
De Joaçaba, Santa Catarina, para o mundo. Juliane Fuganti é nome internacional.  Já realizou inúmeras exposições no exterior, como Madri, Frankfurt, Berlim, Lisboa e Nova York. Aliás, seu trabalho também pode ser conferido, atualmente, no Museu da Alfândega, Cidade do Porto, em exposição aberta no início de junho. A artista levou para Portugal sua atual matéria de pesquisa, a rememoração da paisagem e a hibridização – trabalho que criou no coletivo Zênite, que teve como cenário a Área de Preservação Ambiental (APA) do Passaúna. “Gosto muito de trabalhar com outros artistas. A troca é fundamental porque nosso trabalho é muito solitário”, pondera.

Amuletos de proteção
“Meu trabalho é uma somatória das experiências vividas”, declara a artista. Juliane conta que ficou muito debilitada quando perdeu seu irmão num acidente de carro. “Um dia caiu no meu ateliê um livro sobre gemas brasileiras. Estudei tanto sobre as pedras que cheguei a pensar que se meu irmão tivesse um amuleto, talvez, ele pudesse ter escapado dessa fatalidade”, diz. A dor dessa fase foi traduzida numa série sobre cristais. “Digo que se um dia eu quiser mudar de arte vou abrir um espaço de consultas, porque sei tudo sobre pedras”, conta. 

Nos anos 90, a desejada gravidez conduziu Juliane a olhar para uma temática bem específica, as ecografias. “Fiz uma séria chamada ´A Origem do Mundo´. No começo do trabalho pareciam manchas, mas, de repente aquilo ficou tão óbvio, eram flores. Aí fiz uma série sobre flores, que mais pareciam trevos de quatro folhas - que também é considerado um amuleto”, explica.

Jardim tridimensional
Segundo a artista, uma poética verdadeira não é fácil de esgotar. “Sempre digo aos meus alunos para buscarem a sua verdade e fazerem aquilo que toca o coração”, ressalta. Prova de que segue seus próprios conselhos, quando Juliane foi pesquisar uma poética para o seu Mestrado, ela saltou das flores para o jardim. “Eu havia me dado conta de que tinha mania de chamar as pessoas de ´flor de maracujá. Refletindo sobre isso fui estudar a Passiflora. Descobri desde seus poderes curativos até a simbologia para a Igreja Católica”, detalha. A dedicação aos estudos se materializou na instalação ´Meu Jardim de Passiflora´, traduzida por flores surreais de cerâmica. 

“Às vezes a minha obra vai à frente, em outras a pesquisa teórica toma a dianteira. Em determinadas situações, eu tenho que fazer uma pesquisa teórica para entender porque eu fiz aquilo”, compartilha. Essa foi a primeira vez que Juliane transferiu o seu conhecimento da gravura para a cerâmica. “Eu estava muito ansiosa para trabalhar o tridimensional porque, na faculdade, não apreciei a cerâmica à primeira vista. Aliás, tenho mania de achar que eu não vou fazer alguma coisa e, de repente começo e me apaixono”, entrega.

Quer conferir os trabalhos de Juliane Fuganti? A artista, representada pela Galeria de Arte Zilda Fraletti, tem obras no acervo do Museu Oscar Niemeyer (MON), Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC), Museu da Gravura (Solar do Barão) e no Museu Municipal de Arte (MuMA).

Publicado na edição 42 da revista Imóvel Magazine.