Ele se destacava por deixar para seus clientes um benefício valioso: aumento de cultura.

Clean Sound.
Para alguns, essas duas palavras podem representar uma marca de equipamentos de áudio, vídeo, automotivo ou caseiro, um app, uma plataforma de streaming, enfim. Mas para aqueles que viveram em Curitiba, na década de 90, e passaram pela região do Batel, este nome traz ótimas lembranças, e musicais, por sinal.

Para quem não conheceu, a Clean Sound era uma locadora de cds. Existiam outras, mas esta era a mais procurada, a que mais se destacava e não pelo melhor preço. Muitos vinham de longe para locar lá, e por vários motivos, entre eles, um cardápio invejável e diferenciado de CDs. A loja era a primeira a trazer novidades de todos os gêneros musicais, trazia as tendências musicais que estavam surgindo e qual estilo estava mais em alta em cada país. Quando apresentava determinado artista aos clientes, sugeria levar os cds que este tinha como referência musical, ou seja, conhecia a história de cada músico presente nas dezenas de prateleiras da loja. 

Várias vezes, enquanto procurava algum álbum, percebia que muitos clientes chegavam para locar um cd e saíam com pelo menos meia dúzia. Quando retornavam para devolvê-los, o vendedor da loja, o Maurício, era frequentemente elogiado por suas indicações e pela sua atenção. Além de atender muito bem, a loja deixava para cada pessoa um benefício valioso, o aumento do repertório e da cultura. 

Uma locadora que ia além do ato de locar, dava aos clientes uma aula de música, um brinde, um ‘plus’, um diferencial. Alguns clientes encomendavam para comprar, álbuns importados “no escuro” (sem fazer a menor ideia do que viria), apenas pela recomendação do vendedor. Mais que um vendedor, o Maurício era uma referência. Era apaixonado pelo que fazia, pelo que realmente entendia, era obstinado por superar as expectativas dos seus clientes. Nem preciso enfatizar o quanto a frequência e indicação da loja aumentavam e, portanto, suas vendas.

Chegou ao ponto em que começaram a falar: ‘Vamos pegar um cd no Maurício?’, ‘Será que o Maurício estará lá hoje? Preciso saber se aquele álbum é bom...’. Ele estava à frente dos demais vendedores. Além do domínio que tinha de todo o acervo da loja, conhecia muito bem todos os seus clientes. Caso não conhecesse, dava um jeito de conhecer, e pelo simples fato de ter interesse genuíno no assunto, de querer surpreender positivamente as pessoas.

A notícia de sua saída da loja espalhou-se rapidamente. Muitos até mencionaram que a loja havia ficado órfã, que nunca mais seria a mesma. Este fenômeno acontece quando uma pessoa fica maior do que a empresa para a qual trabalha.

As sugestões musicais que ele me apresentou são referências que carrego até hoje. Além de transformarem o meu repertório criativo, são pontos de conexões inquebráveis que influenciaram de forma positiva todo o meu trabalho. Lamentável e inacreditavelmente, exemplos iguais a esses estão cada vez mais escassos. Mais que um vendedor, era uma referência.


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