Confira a sessão Passaporte da última edição e conheça a cidade que abriga cenários do romance de Romeu & Julieta e heranças da Civilização Romana

Após partir do Lago di Garda, continuava a minha jornada no norte da Itália em direção à região de Vêneto por um caminho de cerca de 30 km, que ora surpreendia por belas montanhas de pedras e vinhedos, ora por antigos castelos no topo de colinas de ciprestes. Verona era meu destino, um polo histórico e artístico, considerado Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.


O burburinho alegre italiano e uma atmosfera mítica toma conta de Verona, que cresceu continuamente durante dois mil anos, tornando-se um modelo de cidade fortificada. Construída a cada período da história, a província reúne vestígios da Civilização Romana, coleções de arte e castelos medievais da época da governança das nobres famílias Scala e Scaligeri, e das dominações venezianas. Vale lembrar ainda que foi neste contexto que contos locais surgiram, como o consagrado Romeu & Julieta, que comoveu Shakespeare a adaptar o romance para o teatro.

Museu a céu aberto 
Caminhar por Verona é uma experiência: uma viagem ao tempo. Comecei meu percurso passando pelo portal da Piazza Brà, uma praça que reúne muitos restaurantes típicos, com vista para o terceiro maior Anfiteatro Romano da Itália. Erguido no século I (30 d.C.), essa Arena é uma das mais bem preservadas e atualmente é palco para espetáculos e óperas ao ar livre para um público de 15 mil pessoas. 


Segui pela elegante Via Mazzini, uma importante rua de pedestres repleta de charmosas lojas e prédios antigos, até à Via Cappello – cujo nome não é mera semelhança com o da internacionalmente conhecida personagem Julieta Capuleto – deparando-me logo com algumas surpresas... 

Cenário de Shakespeare
Indagava-me, se foi Verona com suas belezas históricas e seus romances que inspiraram Shakespeare, ou se foi o dramaturgo que, ao tornar a tragédia Romeu & Julieta famosa, colaborou ainda mais com o clima lendário que ronda a cidade. O fato é que alguns cenários da ficção podem ser facilmente encontrados, como a cena da varanda, onde Romeu prometeu seu amor eterno à Julieta, e o casarão que pertenceu à família 'Capuleto' – mais conhecido como Casa de Julieta – construído de pedra no século XIII com belas janelas e colunas arqueadas.


No gracioso pátio e jardim da casa, avistei o brasão da família Dal Cappello, assim como a estátua de Julieta, que se tornou famosa por um ritual de boa sorte: pessoas do mundo inteiro tocam a estátua na expectativa de encontrar o verdadeiro amor. Na entrada da casa, paredes cobertas por Graffitti com assinaturas de visitantes mostram quantos anseios esse local testemunhou ao longo do tempo. 

História da Arte
Fui em direção à movimentada Praça Erbe, onde era o antigo Fórum Romano, atualmente um espaço para feiras de artesanato, comida, curiosidades e souvenir. O local reúne belos monumentos, como o Palazzo Maffei, em estilo barroco, as pitorescas Casas Mazzanti, com afrescos em sua fachada, e a fonte de Madonna Verona, uma escultura de 1368. 



Passei abaixo do Arco Costa, onde uma passagem levou-me até a Piazza dei Signori, uma praça marcada pelas memórias da nobre família Scaligeri. Lá está o acesso ao Palazzo della Ragione, uma herança românica do século XI (período da queda do Império Romano), hoje sede da Galeria de Arte Moderna Achille Forti. 

Ao longo do Rio Adige
Ao seguir pela Via Sottoriva, cheguei a uma das margens do belo Rio Adige, de origem alpina, que corta o centro histórico de Verona. Neste ponto encontrei a majestosa Basílica de Santa Anastácia, construída em meados de 1300 em estilo gótico, com parte de sua fachada inacabada e um interior de altares e capelas com obras de artistas consagrados, como Pisanello. Fui acompanhando o rio e logo estava na Ponte Pietra, arcada de pedra, datada de 100 a.C., que liga ao outro lado da margem até o Museu Arqueológico do Teatro Romano, de mesma longa data. 

Na curvatura do Adige, avistei a Ponte Scaligero, pertencente ao icônico Castelvecchio de arquitetura fortificada. Construído pelos nobres ancestrais Scala em 1354 para defender a cidade, o castelo tem acesso à estratégica ponte: assimétrica e inclinada para a margem esquerda do rio para facilitar uma rápida fuga de veroneses para a Áustria, onde a outra parte da família nobre vivia. Hoje o castelo abriga um museu com obras de arte e curiosidades medievais de 1300 a 1700.


Top 3 - Programação trendy 
Mangia che te fa bene: aguçar o paladar faz parte da experiência ao visitar Verona. Próximo à Piazza Brà, o movimentado, mas aconchegante, restaurante e enoteca Cangrande serve pratos e vinhos premiados locais. Carro-chefe: burrata (queijo fresco macio), massas artesanais recheadas e filé mignon ao molho de Bardolino. 
Rota pelos vinhedos de Valpolicella, Bardolino e Soave (D.O.C): consagrados rótulos de Denominação de Origem Controlada podem ser degustados durante visitas guiadas, assim como queijos e salames produzidos na região. 
A Galleria d'Arte Moderna Palazzo Forti recebe aclamadas mostras temporárias. Atualmente ‘Picasso. Figure (1906−1971)’ é destaque até 12 de março de 2017.

Fotos: Alan Bloom, Tony Hisgett, Chaim Gabriel Waibel, Amira, Nathalia Arduini.
Escrito por: Nathalia Arduini, jornalista, apaixonada por cultura, arte, gastronomia e viagens.